O Paradoxo do Salário Real
State of Data Brazil · Salários · 2021 a 2025/26 · valores corrigidos pelo IPCA

O paradoxo do salário real

Descontada a inflação, a mediana salarial dos profissionais de dados subiu 20% em quatro anos. Mas, olhando cada nível separadamente, o salário real caiu para Júnior e Pleno e ficou estável para Sênior. A explicação está em quem respondeu à pesquisa: a amostra ficou mais experiente, e quem tem mais experiência ganha bem mais.

Mediana geral, em R$ de nov/2025
Dentro de cada nível, 2021 → 2025/26
é a variação real do salário Júnior

Em resumo

Nominal x real

Em reais correntes, +46%. Descontada a inflação, +20%

A mediana nominal foi de R$ 7,3k para R$ 10,6k. O IPCA acumulou 21,5% entre novembro de 2021 e novembro de 2025, então em reais de hoje a mediana de 2021 equivale a R$ 8,8k. O ganho real é de 19,9%. Em 2022 e 2023 o salário real ficou praticamente parado; a alta se concentrou nas duas últimas edições.

A distribuição se moveu para cima: quem ganha mais de R$ 20k nominais passou de 6,9% para 17,1%, e quem ganha até R$ 4k caiu de 22,2% para 13,4%. A dispersão ficou estável: o 3º quartil continua ganhando cerca de 2,7 vezes o 1º quartil.

Senioridade

Júnior e Pleno perderam poder de compra; só gestores tiveram ganho real claro

Considerando só quem trabalha para empresa brasileira e em valores de novembro de 2025, a mediana do Júnior caiu de R$ 4,0k para R$ 3,5k (−13,6%). O valor nominal ficou parado em torno de R$ 3,4k a 3,5k desde 2022 enquanto a inflação corria. O Pleno perdeu 9,0%. Gestores ganharam 15,4% acima da inflação.

A queda aparente do Sênior em 2025/26 (−8,3%) vem da criação do nível Especialista/Staff+, que tirou do grupo Sênior as pessoas mais bem pagas. Somando os dois grupos, a mediana real fica em R$ 13,0k, 2,8% acima de 2021. A distância entre Sênior e Júnior aumentou: de 3,2 para 3,4 vezes (chegou a 3,6 em 2024/25).

Tempo de experiência

A experiência passou a valer mais; quem está começando ganha menos em termos reais

Entre 2022 e 2025/26, o salário real caiu para quem tem até 6 anos de experiência em dados e subiu para quem tem mais. Quem tem mais de 10 anos ganhou 11,9% acima da inflação; quem tem de 7 a 10 anos, 9,1%. Já quem tem de 1 a 2 anos perdeu 14,2%, e quem tem menos de 1 ano, 13,6%. É o mesmo movimento visto por nível: o mercado está pagando mais por experiência e menos por entrada.

Em 2025/26 a mediana vai de R$ 3,3k (menos de 1 ano) para R$ 19,5k (mais de 10 anos). Cada faixa de experiência acrescenta entre R$ 2,2k e R$ 3,7k à mediana.

Gênero

Parte da diferença salarial vem de nível e experiência; outra parte não

Em 2025/26, a mediana salarial das mulheres é 88,4% da dos homens: uma diferença de 11,6 pontos. Parte dela vem do perfil: há proporcionalmente menos mulheres em níveis altos e com muita experiência. Para isolar isso, comparei mulheres e homens do mesmo nível e com a mesma faixa de experiência. Nessa comparação, elas recebem 95,3%. Ou seja, cerca de 60% da diferença se explica pelo perfil, e cerca de 40% não.

A diferença que sobra apareceu ao longo do tempo: em 2021, comparando mulheres e homens do mesmo nível e experiência, as medianas eram iguais (100,5%). Desde 2023 fica em torno de 95%. No topo, 15,9% dos homens ganham mais de R$ 20k, contra 9,1% das mulheres. As mulheres são 29,1% de quem ganha até R$ 4k e só 14,1% de quem ganha mais de R$ 20k.

Trabalho para o exterior

Empresa estrangeira paga quase 3 vezes mais, mas essa vantagem está diminuindo

Quem mora no Brasil e trabalha para empresa estrangeira tem mediana de R$ 29,1k, contra R$ 10,2k de quem trabalha para empresa brasileira. A diferença é de 2,85 vezes; em 2021 era 3,3. Em reais de hoje, o salário de quem trabalha para fora ficou praticamente igual (R$ 28,5k para R$ 29,1k), enquanto o de quem trabalha para empresa brasileira subiu 17,5% acima da inflação. Isso pode refletir o câmbio e também o fato de mais pessoas, e não só as mais experientes, estarem conseguindo essas vagas.

Esse grupo dobrou na pesquisa (de 2,2% para 4,4% das respostas) e é formado principalmente por Sênior e Staff+ (67%). Para um Sênior, a diferença é de R$ 30,0k contra R$ 11,6k. Nesse grupo, 22,7% estão na faixa aberta "acima de R$ 40k". Ela limita a estimativa de quantis que caiam nessa faixa; não implica subestimação das medianas de R$ 29,1k e R$ 30,0k, que ficam abaixo dela.

O topo da pirâmide

Quem ganha mais de R$ 20k: gestores, empresas estrangeiras, Sudeste e pouca presença feminina

Em 2025/26, 17,1% de quem mora no Brasil ganha mais de R$ 20k por mês (540 pessoas). Mais da metade desse grupo é gestor. Juniores e plenos são, juntos, 2,1%. Comparando a fatia de cada grupo no topo com a fatia na pesquisa toda, empresas estrangeiras são o grupo mais sobrerrepresentado (4 vezes), e as mulheres o mais sub-representado.

Metodologia

Como os números foram calculados

Fontes: datasets públicos da Data Hackers no Kaggle (state-of-data-2021 a state-of-data-brazil-2025-2026) e IPCA do IBGE (SIDRA 1737 / Banco Central SGS 433). Os nomes das colunas estão mapeados em mapping/schema_map.yaml.